terça-feira, 22 de novembro de 2011

Chuva

 A chuva começou a cair...
 Sentia toda a imundice ir embora, escorriam pelo corpo e deitavam ao chão. Era esse o momento de clareza e satisfação que aguardavam tanto. Cada gota que encostava em sua pele parecia ferro quente os marcando, mas era tão cativante, e ansiávamos por mais. Era uma dor sofrida, mais que dava prazer.
 Subitamente tudo se embranqueceu, e ali estava, todos os seus pensamentos pareciam pular para fora da cabeça, e estavam a seu lado, olhando para ele. Todos se juntaram a sua volta, o fechando em um círculo, e o ficaram olhando com rostos que pareciam estar esperando alguma coisa, querendo ver qual seria o seu próximo movimento. Mas ele ficou parado ali, sentou-se, e esperou a chuva passar.
 A chuva enfraqueceu, os pensamentos começavam a se desvanecer, mas um ainda continuava ali, o olhando, com uma cara de nojo e desprezo, ódio e arrogância, dó e repulsão. Ficou com medo, fechou os olhos e começou a sussurrar algumas palavras. Olhou novamente e aquilo continuava ali.
 O rosto daquilo parecia estar desfigurado, não tinha certeza se era um homem ou uma mulher, ou se era uma pessoa de verdade.
 A chuva voltou, mas os pensamentos não. Apenas aquele continuou imóvel ali, o fitando como se estivesse obcecado em ver o que ele faria. Mas quando os pingos da chuva caíram sobre sua face, o rosto daquela coisa começou a se modelar.
 Um rosto apareceu, ele ficou perplexo e paralisou de medo. Desejava estar morto naquele momento, desejava nunca poder pensar em mais nada pelo resto de sua vida. Ele fechou os olhos, ficou um tempo parado e depois correu. Continuou correndo, sem abrir os olhos.
 Quando surtiu um pequeno momento de coragem ele abriu os olhos, já estava longe. Tudo voltou as suas cores novamente, e ele se viu sentado, encostado em uma árvore, como se tudo aquilo tivesse sido um sonho assustador. Não foi um pesadelo, por que o monstro o agradava. Percebeu que estava seco, então foi tudo ilusão.
 Se levantou e se espreguiçou, deu alguns passos a frente e cumprimentou algumas pessoas a distância, olhou para cima e viu que as nuvens estavam cinzas. Parecia que ia chover...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Cantavam

 Cantarolava durante o caminho...
 O mínimo parecia tão empolgante, o banal se tornou tão importante. Ouvia todos os suspiros de alívio e também de desprezo, mas os sonhos que por ali vagavam eram atraentes e sedutores. Aquele gosto de vida invadindo seus pensamentos o deu mais motivos para continuar a cantar.
 As pessoas com caras de sérias e preocupadas, sempre com pensamentos pessimistas e nada divertidos. Estavam cansados mas continuavam a fazer aquilo. Continuavam a cantar.
 Quando todo o futuro acabava se despedaçando por um pequeno erro ou distração, aquilo parecia ser o menor dos problemas, e era passado para trás sem a mínima importância, incrível como essas pessoas sabem fingir muito bem. A dor e o medo sempre estiveram presentes, mas sempre o soube escondê-los. Nada os magoavam, pelo menos aparentemente. E assim eles continuavam a cantar.
 Alguns momentos eles enlouquecem, como se fossem loucos com vontade de se libertaram dessa música melancolicamente alegre. Mas na verdade são pessoas fracas, que gostam do som doce e com essência de morte que esse piano velho transmite. E também são dotados de paciência. Se um dia elas enlouquecerem é por que você os impediu de cantar. Nunca faça isso.
 Só olhe para esse céu desbotado. Tente ler as estrelas enquanto canta. Um dia irá entender.

domingo, 20 de novembro de 2011

Não querem

 Angústia e desespero. O medo te paralisa. E o pior de tudo é que é por coisas tão simples, coisas tão idiotas...
 Nunca enxergamos o que queremos ver, nunca ouvimos o que tem que ser dito, as verdades pulam na sua frente mas você é fraco demais para mudar alguma coisa com elas, você as deixa escapar pelas mãos, e depois olha para trás e as vê sendo levadas com a brisa do vento.
 O que imaginamos fazer nunca sai como é para ser feito, é tudo tão repentino e inesperado. Quando acordamos para a realidade e vemos que não é e nunca será do jeito que pensávamos, procuramos nos esconder dentro da pouca inocência que acreditamos ainda existir dentro de nós, isso acaba nos prendendo e nós só nos enganamos mais e mais com isso.
 Uma alma perdida, um corpo morto, os pensamentos mais vivos possíveis nunca saíram dessa sua caixa de vidro. As amarguras vão tomando conta, e vamos nos enrolando no manto da solidão. A vida a sua volta não tem mais importância.
 A escuridão monótona parece ser tão aconchegante, os sussurros da noite te deixam tão alegre, esses corpos mortos andando com um olhar vago... A morte um dia os encontra, e os fracos que nunca se arriscaram vão embora sem nenhum mérito, nasceram e morreram mortos.
 Fugindo se consegue tempo, mas esse tempo não te ajuda, só lhe da mais motivos para querer morrer.
 Eles se escondem do que realmente querem. Fingem que não se importam e dão de ignorantes burrões. Eles tem medo, pois nunca sentiram algo tão vívido dentro desses corpos frios. Tem medo de não conseguirem fazer o que tem de ser feito. São pessoas mortas, mais que ainda tem motivos para se preocupar, para não magoar, por isso se escondem, ninguém nunca pode ficar ao lado deles. Eles não querem que sua mágoa passe para outras pessoas. Não querem apunhalar o espírito sonhador dos outros, pois o deles já desistiu a muito tempo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Penso

 Eu penso, penso, penso e penso. Fico pensando e pensando. Pensar. Pensar.
 Malditos pensamentos, insistem em pensar no que não devem pensar. Insistem em querer o que não se pode ter. Insistem em pensar sobre eles mesmos.
 Eles parecem estar no controle, mas não estão, mas estão influenciando em algumas coisas, mas não em todas elas. Depende da coisa. Parece que até meus pensamentos pensam, quando eu penso em algo, não é aquilo e acabou, ele vai se evoluindo, às vezes para algo criativo e magnificante, ou para uma merda qualquer. A segunda opção é a que mais ocorre.
 Eu só sei que penso, logo existo. Mas se meus pensamentos também pensam, eles também existem? Mas se existirem vão deixar de ser pensamentos. Pois pensamentos não existem, por isso são chamados de pensamentos, pois só pensamos neles.
 Eu pensei muito para escrever isso? Acho que não, pois se tivesse pensado não teria escrito, estaria só pensando. Acho que estou meio drogado, meio idiota, meio relaxado, meio pensante.
 Estou rendido a algo que está me fazendo pensar, e este algo está fazendo até meus pensamentos pensarem, agora, o que seria este algo?
 Vou pensar a respeito.